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Calor em cães e gatos: como prevenir estresse térmico, golpe de calor e proteger a saúde do seu pet

um gato e um cão dormindo juntos em um ambiente fresco
Sem calor, sem dor!

O aumento progressivo das temperaturas médias, associado a ondas de calor mais longas e intensas, tem provocado impactos diretos sobre a saúde animal, especialmente em espécies domésticas como cães e gatos. Esses animais, por possuírem mecanismos fisiológicos de termorregulação distintos dos humanos, apresentam maior susceptibilidade ao estresse térmico, à hipertermia e ao golpe de calor, condições potencialmente fatais quando não reconhecidas e manejadas adequadamente.


Do ponto de vista da medicina veterinária preventiva, o calor extremo deve ser compreendido não apenas como um fator ambiental desconfortável, mas como um agente patológico indireto, capaz de desencadear alterações metabólicas, cardiovasculares, respiratórias, neurológicas e dermatológicas. Assim, compreender os mecanismos envolvidos, as estratégias corretas de manejo e as condutas emergenciais é fundamental tanto para tutores quanto para estudantes e profissionais da área.


Termorregulação em cães e gatos: bases fisiológicas


Cães e gatos são animais homeotérmicos, ou seja, mantêm a temperatura corporal relativamente constante. Entretanto, diferentemente dos humanos, possuem capacidade limitada de dissipação de calor por sudorese. Em cães, a principal via de perda térmica ocorre por meio da ofegação, que promove evaporação de água nas vias aéreas superiores. Em gatos, esse mecanismo também existe, porém é menos evidente, sendo complementado por comportamentos adaptativos, como redução da atividade física e busca por superfícies frias.


A pelagem desempenha papel central nesse processo. Longe de ser apenas um fator estético, o pelo atua como isolante térmico bidirecional, protegendo o animal tanto do frio quanto do calor excessivo. A remoção indiscriminada dessa barreira natural compromete a capacidade de regulação térmica e expõe a pele à radiação solar direta.


Segundo diretrizes da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA), temperaturas corporais acima de 40 °C configuram emergência médica, com risco elevado de lesão celular irreversível e falência orgânica.🔗 https://wsava.org


Estresse térmico, hipertermia e golpe de calor: diferenças conceituais


O estresse térmico ocorre quando o animal é exposto a temperaturas ambientais elevadas por tempo prolongado, sem capacidade adequada de dissipar o calor. Caso essa condição persista, pode evoluir para hipertermia, caracterizada pelo aumento da temperatura corporal acima dos valores fisiológicos normais.


O golpe de calor (heat stroke) representa o estágio mais grave desse processo, envolvendo não apenas elevação térmica, mas também resposta inflamatória sistêmica, distúrbios de coagulação, hipóxia tecidual e dano multiorgânico. Trata-se de uma condição com alta taxa de mortalidade, mesmo quando tratada adequadamente.


Raças braquicefálicas, animais idosos, obesos, portadores de doenças cardíacas ou respiratórias e filhotes apresentam risco significativamente aumentado, devido à menor eficiência dos mecanismos compensatórios.


Impactos sistêmicos do calor excessivo


Do ponto de vista fisiopatológico, o calor extremo pode desencadear uma cascata de eventos adversos. A vasodilatação periférica, necessária para dissipação térmica, pode levar à hipotensão. A desidratação compromete a perfusão renal, favorecendo lesão renal aguda. Alterações na permeabilidade intestinal permitem translocação bacteriana, agravando quadros inflamatórios sistêmicos.


Além disso, a hipertermia interfere diretamente na estabilidade das proteínas celulares, provocando desnaturação enzimática e disfunção mitocondrial. Esses mecanismos explicam por que o golpe de calor não é apenas um problema térmico, mas uma emergência sistêmica complexa.


Manejo ambiental e estratégias de prevenção


A prevenção do estresse térmico deve ser priorizada em períodos de calor intenso. Ambientes ventilados, sombreados e com controle térmico adequado são fundamentais. O uso de ventiladores e ar-condicionado é seguro, desde que se evitem variações bruscas de temperatura.


A hidratação constante é indispensável. Água fresca deve estar sempre disponível, preferencialmente em recipientes que conservem melhor a temperatura, como inox ou cerâmica. Em gatos, fontes de água auxiliam no estímulo à ingestão hídrica.


Passeios devem ser realizados exclusivamente nos horários mais frescos do dia, evitando superfícies aquecidas que podem causar queimaduras nos coxins. A escovação regular da pelagem, removendo pelos mortos e nós, contribui significativamente para a circulação de ar junto à pele, sem comprometer a função protetora do pelo.


Tosa excessiva: um erro comum com consequências clínicas


A crença de que tosar o animal muito baixo reduz o calor é amplamente difundida, porém cientificamente incorreta. A remoção excessiva da pelagem elimina a camada isolante natural, aumentando a absorção de calor e o risco de queimaduras solares, dermatites e desregulação térmica.


A abordagem correta envolve manejo da pelagem, não sua eliminação. Tosas devem ser funcionais, respeitando a fisiologia da espécie e a orientação profissional. Esse tema é abordado com mais detalhes em conteúdos educativos disponíveis no blog da Garras e Bigodes:🔗 https://www.garrasebigodes.com.br/blog


Alimentação, metabolismo e calor


Durante períodos de calor intenso, é comum observar redução espontânea do apetite. Isso ocorre porque o processo digestivo gera calor metabólico adicional. Refeições devem ser oferecidas nos horários mais frescos do dia, com atenção à qualidade nutricional e à digestibilidade.


Alimentos inadequados ou tóxicos tornam-se ainda mais perigosos em épocas festivas, quando há maior exposição a restos de comida. Para aprofundamento sobre esse risco, recomenda-se a leitura de:🔗 https://www.garrasebigodes.com.br/post/alimentos-toxicos-pets-fim-de-ano


Primeiros socorros em casos de suspeita de golpe de calor


Diante de sinais como ofegação intensa, salivação excessiva, fraqueza, desorientação ou colapso, deve-se considerar emergência veterinária imediata. Até o atendimento profissional, algumas medidas podem ser adotadas.

O animal deve ser levado a um ambiente fresco e ventilado. A aplicação de água em temperatura ambiente sobre o corpo auxilia na dissipação de calor, especialmente em regiões como abdômen, virilha e axilas. O uso de ventiladores favorece a evaporação. Água deve ser oferecida, mas nunca forçada.

É fundamental evitar água gelada ou gelo diretamente sobre o corpo, pois isso pode provocar vasoconstrição periférica e choque térmico, agravando o quadro.Diretrizes gerais de emergência podem ser consultadas no Conselho Federal de Medicina Veterinária:🔗 https://www.cfmv.gov.br


Considerações finais

O calor extremo representa um desafio crescente para a saúde de cães e gatos. Seu impacto vai além do desconforto térmico, podendo culminar em quadros graves e fatais. A prevenção, baseada em manejo ambiental adequado, informação correta e reconhecimento precoce dos sinais clínicos, é a estratégia mais eficaz para proteger os animais.


A produção e disseminação de conteúdo técnico acessível, como este, contribui para reduzir riscos, orientar tutores e fortalecer a prática veterinária baseada em evidências.


FAQ Técnica – Calor extremo em cães e gatos

O calor pode matar cães e gatos?

Sim. O golpe de calor pode levar à falência múltipla de órgãos e óbito, mesmo com tratamento.

Qual a temperatura perigosa para cães?

Temperaturas corporais acima de 40 °C já configuram emergência veterinária.

Gatos sofrem menos com calor que cães?

Não. Gatos demonstram sinais mais sutis, o que pode atrasar o diagnóstico.

Tosar o pelo ajuda a refrescar o animal?

Não. A tosa excessiva prejudica a termorregulação e aumenta riscos dermatológicos.

Água gelada ajuda em caso de hipertermia?

Não. Deve-se usar água em temperatura ambiente para evitar choque térmico.

Quais raças sofrem mais com calor?

Raças braquicefálicas, animais obesos, idosos e com doenças cardiorrespiratórias.

Posso dar gelo para o pet?

Não é recomendado sem orientação veterinária.

Caminhar no calor pode machucar as patas?

Sim. Superfícies quentes causam queimaduras nos coxins.

O calor afeta a alimentação do pet?

Sim. O apetite tende a diminuir e ajustes na rotina alimentar são recomendados.

Quando devo procurar um veterinário?

Sempre que houver sinais de ofegação intensa, fraqueza, desorientação, vômitos ou colapso.


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